Marcelo Serrado, o Crô de “Fina Estampa”, diz que não quer que sua filha veja beijo gay na TV

De volta à TV Globo, o ator Marcelo Serrado encarna o homossexual Crô na novela “Fina Estampa”, mas diz que não quer que sua filha veja beijo gay no horário nobre

“Olha o Crô! Crôôôôô! Crôôôôô!”, grita uma criança que está no Projac, o complexo de estúdios da TV Globo, no Rio. Crô acena e pega carona em um carrinho de golfe que o leva até um camarim.

Há quase cinco meses o ator Marcelo Serrado, 44, é chamado de Crô por onde passa. Tudo por causa de seu personagem na novela “Fina Estampa”, o mordomo gay Crodoaldo Valério. Aquele que chama sua patroa, Tereza Cristina ( interpretada por Christiane Torloni), de “rainha do Nilo” e “divina Ísis”.

“Oi, amor, tudo bem? Quais são minhas cenas hoje?”, pergunta à produtora da trama ao chegar ao camarim de jeans, camiseta azul-marinho e tênis de couro. Logo, vai para a sala de maquiagem fazer o cabelo. O cabeleireiro passa uma musse nos fios e usa o secador para criar o característico topete de Crô.

O ritual de beleza já faz parte de sua rotina de gravações. Ir à manicure também. “Brinco que achei o [tom do]Crô fazendo a unha pela primeira vez na vida”, diz à repórter Lígia Mesquita.

O sucesso do personagem, afirma, se deve muito ao fato de Crô não levantar bandeiras -característica que o ator, como telespectador, acha “chato” de assistir nas tramas. “Ele é um gay solar. É um folhetim”, diz.

Sobre a exibição de um beijo gay na TV, tende a concordar com o autor Aguinaldo Silva, que afirmou que isso só poderia acontecer “lá em casa”. “Isso é algo que tem que ir quebrando aos poucos. Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30.”

Afirma ser a favor da união estável entre pessoas do mesmo sexo. “Isso é fundamental. Estamos em 2011. Acho um absurdo quando vejo cenas de homofobia como aquela em que pai e filho foram espancados [ no interior de São Paulo]. E se eu der um beijo no meu irmão? Vou ser agredido?”

Quando o topete fica pronto, ele pede licença para fazer a barba no banheiro. Em dois minutos acaba e vai para a sala do figurino, onde encontra seu colega de elenco Alexandre Nero, o motorista Baltazar. “Eu acabo fazendo a escada. A graça tá com ele”, diz Nero.

Serrado pega uma meia cor de pele, usada normalmente por mulheres, e coloca no pé antes de calçar um mocassim. Veste calça jeans branca, gravata borboleta azul sobre uma camisa de mesmo tom, os óculos escuros e sai para gravar.

No carrinho de golfe rumo à cidade cenográfica, diz que trabalhou muito para criar o personagem. Por indicação do amigo Rodrigo Santoro, procurou Sérgio Penna, preparador de atores, para ajudá-lo na missão. “Não tem milagre. Hoje em dia tem muito ator, a competição é grande. Tem que se preparar. O mercado é cruel. Você tem que estar sempre bem, fazendo seu melhor trabalho.”

A gravação com Christiane Torloni começa. Na cena, ele ajuda a patroa a destruir cartazes em que ela aparece sendo procurada como uma criminosa. Duas funcionárias da limpeza dão risadas quando Crô entra em cena.

O ator carioca ficou seis anos fora da TV Globo. Retornou no ano passado, a convite do autor Aguinaldo Silva, para interpretar Crô.

“Saí porque meu contrato acabou. Hoje em dia concordo com essa política. A Globo tem muito ator, às vezes o cara pode ficar subaproveitado. Eu sou um operário, me formei no teatro, dei aula, sempre trabalhei muito e corri atrás. Não acredito nessa coisa do ator que reclama muito”, diz.

No período longe da emissora global, participou da série “Mandrake”, da HBO, e atuou em três novelas na Record. Também produziu e estrelou o musical “Tom & Vinicius”. E fez o filme “Malu de Bicicleta”, que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Paulínia, em 2010.

Foi convidado a retornar à TV Globo, mas só aceitou para fazer Crô. “Eu ia voltar fazendo o quê? Pra quê? Em que termos? Eu vou atrás de bons personagens, de um bom trabalho.”

A principal diferença entre as duas emissoras, segundo ele, “era a coisa do Ibope”. “Foi importante ter ido para a Record. Porque, de uma certa maneira, vi aquela emissora crescer. É sempre bacana quando o Aguinaldo [Silva] fala que me pegou lá. Ele me viu fazendo dois vilões e por isso me chamou pra fazer um gay. Ou seja, tudo tem um porquê. É o budismo”, diz ele, adepto da filosofia.

Sua cena chega ao fim e ele volta ao camarim para lavar o cabelo. “Nossa, hoje tava um trânsito, né?”, comenta. E diz que o “Rio está um canteiro de obras”. Afirma se interessar por política, “mas tô muito descrente com toda essa roubalheira”. Revela que votou em Dilma Rousseff para presidente em 2010. “E votei no Lula. Sempre no PT.”

Tira a maquiagem com lenços umedecidos e vê uma espinha na testa. “Já passei vários cremes e ela não sai.” Diz que é “metrossexual” no sentido de se cuidar. “Passo filtro solar, cremes. Mas não faria plástica.” A idade, segundo ele, é algo que vai limitar o seu trabalho “lá na frente”. “Acho que com mulher [a cobrança de juventude] é mais cruel. O homem envelhece e ainda consegue ter papéis bons”, diz.

Ele conta que pretende fazer outro musical. “Tô estudando canto e violão, quero me aprofundar nisso”. Quer também fazer dois novos filmes: “No Retrovisor”, inspirado em obra de Marcelo Rubens Paiva, e “Mesmo Que Seja Eu”, de Evaldo Mocarzel, em que interpretará um autista. Neste mês, fica em cartaz no Rio com o espetáculo “Não Existe Mulher Difícil”.

“Já estive aqui em cima e lá embaixo e minha essência não mudou. Continuo a mesma pessoa. Mas acho que talvez hoje eu seja um ator mais inteligente”, afirma. Acha “chato” ficar falando de si. “No nosso trabalho tem ego demais. A gente tem sempre que baixar a bola.”

Fonte: Folha

Postado por Cleberson

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