Moacyr Franco: “Paula Fernandes está me sustentando”

O músico e ator festeja regravações de suas músicas por sertanejos e, solteiro, fala como aproveitará “os últimos 10% de sua vida”

Marília Neves, iG Gente | 12/01/2012 07:02

Foto: Claudio Augusto

“Foi uma cena de futebol. Selton (Mello) me agarrou que nem quando faz gol e rolamos no chão”, sobre o prêmio de coadjuvante pela atuação no filme “O Palhaço”

“Devo estar vivendo os últimos 10% da minha vida”. Moacyr Franco, que está com 75 anos, repete a frase por duas vezes durante a entrevista que concedeu no litoral paulista. Apesar de acreditar que só tem mais cerca de sete anos pela frente, o músico, escritor e ator está repleto de planos profissionais. Uma autobiografia, a continuidade de seu trabalho na “A Praça é Nossa”, a gravação de mais alguns CDs e projetos para o cinema estão na lista. Esta última vontade veio após uma participação no filme “O Palhaço”, de Selton Mello, no qual interpreta o delegado Justo. Com o papel, levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Paulínia.

 

Foto: Claudio Augusto

Moacyr Franco: “Devo estar vivendo os últimos 10% da minha vida”

Será que a abelhinha do cinema picou Moacyr? “Não, foi a abelhinha da perfeição. Às vezes eu gravava seriado na rua sem monitor”, contou o músico, que diz que quer “fazer direito” seus próximos trabalhos.

Bem disposto e animado, Moacyr não perde o humor nem quando conta que bateu o carro ao atender uma ligação da reportagem. “Fui atender o telefone e bati no carro da frente. Você não acredita na coincidência: estávamos indo para o mesmo local e estamos hospedados no mesmo hotel”, contou Moacyr sobre o motorista do outro carro.

Solteiro – ele se separou há dois anos de Dani Franco –, ele se diz uma pessoa antenada e não consegue ficar ouvindo lamentações de mulheres de meia-idade. “É muito complicado pra mim sentar com uma moça de 50 anos que queira conversar sobre ‘ah, essa vida é muito triste’. Eu não aguento. Não é meu papo esse aí. Minha conversa é outra. Quero viver o que virá”, afirma. Enquanto segue sozinho, dedica-se ao trabalho e não para: “Vim na estrada gravando uma música”. E festeja a arrecadação das regravações de suas músicas pelos sertanejos do momento. “Essa Paula Fernandes está me sustentando. Ela canta todo show, e ela faz show todo dia.”

“É muito complicado pra mim sentar com uma moça de 50 anos que queira conversar sobre ‘ah, essa vida é muito triste’. Eu não aguento, não é meu papo esse aí”

iG: Está fazendo as duas coisas, então, atuação e música?
Moacyr Franco:
Faço tudo! E escrever, que é o principal. Acho que é o meu dote que levo mais a sério. Acho que escrevo bem. Aí, estou fazendo ao mesmo tempo dois seriados e um esboço de um livro. Tem um pessoal querendo fazer um curta-metragem sobre minha vida e estou com muito medo. Quero ficar dono da minha vida.

iG: Está com medo de não retratarem bem sua vida?
Moacyr Franco:
Não, é gente muito competente. Mas quero fazer eu, até porque acho que narro bem, que escrevo bem, tenho histórias muito bonitas.

iG: Você me parece muito perfeccionista.
Moacyr Franco:
Sou agora, porque já fui muito porco. Porque era assim, era tudo muito improvisado. Já fui menos exigente do que sou agora. Primeiro porque essa última parte da minha vida, que devo estar vivendo os últimos 10%, preciso fazer tudo direitinho para deixar uma boa imagem. Se eu fosse sozinho no mundo, não tinha importância. Mas meus filhos vão herdar isso. Quero que tenham uma boa imagem do pai, do avô.

iG: Você escreve, atua, mas o ramo que é mais conhecido é na música. Apesar disso, acabou de receber um prêmio por sua atuação em “O Palhaço”. Afinal, em que você se realiza realmente?
Moacyr Franco:
O que é mais prazeroso fazer, mais fácil, é cantar. Tenho 42 discos de ouro. Se eu abrir a boca e cantar 25 músicas dessas, todo mundo canta junto. Então é o que dá menos trabalho. Mas eu acho que o que faço melhor é escrever.

 

Foto: Claudio Augusto

Moacyr Franco: “Devo estar vivendo os últimos 10% da minha vida”.

iG: Tem várias canções que você escreveu para o sertanejo, que fazem sucesso ainda hoje. Você recebe por essas músicas?
Moacyr Franco:
Parei de me preocupar com esse negócio de direitos. Recebo o que eles mandam e pronto. Fiquei 40 anos discutindo, “mais porque, mais como assim, e tal”. Não posso me queixar, não, porque esse pessoal atual tem regravado coisa minha. Tenho uma música que todo mundo gravou (“Ainda Ontem, Chorei de Saudade”). Essa Paula Fernandes está me sustentando. Ela canta todo show, e ela faz show todo dia. Só isso aí já dá uma arrecadação legal.

iG: Você acabou de ganhar um prêmio no cinema, em seu primeiro trabalho nas telonas. Como foi ser reconhecido por algo em que você estava estreando?
Moacyr Franco:
(Moacyr fica com os olhos marejados) Fiquei muito emocionado quando ganhei esse prêmio. Acho que foi o momento mais emocionante de toda a minha vida, que é pontilhada de momentos agudos. Mas é porque não tinha a menor expectativa quanto a isso. Já me considerei muito feliz, considerei um prêmio, ter sido convidado pelo Selton Mello para participar de um filme dele, porque ele é a atualidade, é o cinema novo, o futuro. No dia da exibição foi chocante, para dizer uma coisa mais suave, porque o cinema aplaudiu minha cena. Não vi um olhar negativo.

iG: E como foi no dia da premiação?
Moacyr Franco:
Eu tinha acabado uma gravação no SBT e fiquei na dúvida, vou ou não vou. Cheguei lá meia-noite e não tinha mais ninguém. Mas tinha uma festa na lateral do teatro. Cruzei com um casal e eles me cumprimentaram. Olhei para eles e falei: “Mas por que parabéns?”. Aí a mocinha falou: “Melhor Ator Coadjuvante”. Fiquei paralisado, me deu uma coisa, um choque. Como pode concorrer ao prêmio de ator coadjuvante um cara que atua em uma cena de menos de três minutos? Cruzei com o Selton e aí foi uma cena de futebol. Ele me agarrou que nem quando faz gol e rolamos no chão. Na minha vida, de dez em dez anos, acontece alguma coisa e eu renasço, inclusive como ser humano, como pessoa física mesmo. Uma vez eu morri na Santa Casa de Santos.

iG: Como assim?
Moacyr Franco:
É, fiquei cinco minutos morto. E eles me recuperar. Foi durante uma operação. E aí, minha vida mudou. Foi esse negócio de sertanejo começar a gravar música minha, a Rita Lee me reciclou, me colocou em outro patamar, me aproximou desse pessoal jovem, universitário. Então esse negócio do cinema é mais uma dessas. Tenho certeza que vou fazer carreira no cinema agora. Até porque tem muito pouco velho disponível (risos).

 

Foto: Claudio Augusto

Moacyr Franco: “Eu parei de me preocupar com esse negócio de direitos (autorais). Recebo o que eles mandam e pronto.”

iG: Mas conta um pouco mais sobre esses seus cinco minutos de morte. Você se lembra de algo?
Moacyr Franco:
Fiz uma operação plástica na década de 1970. É que todo mundo fazia isso, de tirar a bolinha daqui (bolsas embaixo dos olhos), que é uma burrice. Nunca tire! E o pior é que foi muito mal feita. O médico era de Santos e ficou com muita vergonha, quis refazer. Aí ele deu anestesia e eu apaguei. Minha mulher na ocasião falava que eu voltei outra pessoa. Muito pior, segundo ela (risos).

Considerei um prêmio ter sido convidado pelo Selton Mello para participar de um filme dele, porque ele é a atualidade, é o cinema novo, o futuro”

 

Foto: Claudio Augusto

Moacyr Franco

iG: Seu filho (Guto Franco) está na direção da Globo e já trabalhou lá. Pensa um dia em deixar o SBT?
Moacyr Franco:
Acho que acabou isso. Estou no SBT, mas é porque tem que estar em alguma emissora. E por causa da Praça, tenho muitos amigos, não deixo nunca a praça, né?

iG: Mesmo com tantos projetos no cinema e na música, você seguirá na Praça?
Moacyr Franco:
Não saio da Praça. Mas na televisão, posso estar fazendo um seriado que vai passar na Rede Vida, por exemplo. Com a internet, acabou. O segundo lugar em audiência é a internet. Eu estou vivendo o futuro.

“Continuo sem ninguém, sozinho, mas não triste. Estou superfeliz, estou vendendo alegria”

iG: Você fez uma aposta com o Carlos Alberto de Nobrega de quando um arrumasse uma namorada, o outro também arrumaria. Ele está namorando. E você, vai perder a aposta?
Moacyr Franco:
Eu estou começando a desanimar. (risos). Tenho uma dificuldade terrível. Nesse campo, não consigo me enquadrar na conversa de mulher sofrida, essas coisas assim. Nisso eu sou muito jovem. Meu papo é outra coisa. Não é nem pelos dotes físicos. E é muito difícil você convencer uma pessoa mais jovem que é bacana isso. Cada vez mais a embalagem é que vale. Mas, não desanimo, não. E não tem muita importância, a gente vai seguindo. Eu vivo os últimos 10% de minha vida.

iG: Mas os últimos 10% são sete anos e meio. É isso que você acha que terá mais de vida?
Moacyr Franco:
Por aí! Se o mundo não acabar mesmo, porque parece que vai acabar de novo agora. E se for para ser curtido assim, será assim. A minha separação foi muito traumática, foi muito triste. Então, tenho pouca animação pra começar de novo. E depois, eu tenho meus filhos, eles me preenchem tudo.

iG: Em 2010, logo que você se separou, afirmou que a vida de solteiro estava horrível. Ainda sente assim?
Moacyr Franco:
Naqueles dias, eu estava muito down, mesmo, muito para baixo. Agora não tenho nem tempo de lembrar disso. Continuo na mesma casa, na mesma cama, com os meus cachorros. Continuo sem ninguém, sozinho, mas não triste. Estou superfeliz, estou vendendo alegria. Porque no começo foi horroroso, mas agora não.

iG: Comentaram na época que a separação de vocês teria sido por uma traição. Foi isso mesmo?
Moacyr Franco:
Não, não, não…deixa isso para lá.

AGRADECIMENTO: Sofitel Jequitimar (Guarujá)
Fonte: IG Gente
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